quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Bailarinas de Floripa no Bolshoi


Jornal O ESTADO (SC) - 16 de março de 2000

PRÊMIOS RECEBIDOS ENTRE 1994 e 2002

1994

III Prêmio SOGIPA, Porto Alegre, RS

* 3º lugar, categoria infanto-juvenil

II Festival de Dança do Mercosul, Bento Gonçalvez, RS

* 3º lugar, categoria grupo infanto-juvenil


1995


XIII Festival de Dança de Joinville

* 3º lugar, conjunto clássico amador I

Festival "Danza Niño" Buenos Aires, Argentina

* 3º lugar, solo clássico de repertório


III Festival de Dança do Mercosul

* 2º lugar, solo clássico de repertório

* 4º lugar, solo clássico de repertório, Troféu Estímulo


1996


Festival de Dança de Joinville

* 3º lugar, solo clássico de repertório, amador I

* 2º lugar, trio neoclássico, amador I


1997


Encontro Latino Americano de Coreógrafos, Buenos Aires

* 3º lugar, categoria conjunto neoclássico


1999


VI Festival de Dança do Mercosul

* 2º lugar, solo clássico de repertório, junior

* 3º lugar, solo clássico de repertório, junior

* 3º lugar, solo clássico de repertório, infantil

* 2º lugar, conjunto neoclássico, junior

* 3º lugar, trio clássico de repertório, junior


2000


Festival de Dança de Joinville

* 2º lugar, solo clássico de repertório, infantil


Festival Porto Alegre em Dança

* 1º lugar, solo comtemporâneo, profissional

* 1º lugar, duo contemporâneo, profissional

* 2º lugar, solo clássico de repertório, juvenil

* 2º lugar, solo clássico de repertório, profissional

* 2º lugar, trio contemporâneo, profissional


VII Festival de Dança do Mercosul

* 2º lugar, solo clássico infantil


2001


Festival de Dança de Joinville

Festival da Meia Ponta
* 4º lugar, solo clássico, infantil


Festival Porto Alegre em Dança

* 1º lugar, conjunto juvenil - clássico de repertório

* 1º lugar, conjunto infantil - clássico

* 2º lugar, solo clássico infantil



2002

Festival Porto Alegre em Dança

* 2º lugar, conjunto, Sênior - Ballet Moderno

* 2º lugar, conjunto juvenil - Neo Clássico

* 3º lugar, conjunto infantil - Ballet Clássico

* 3º lugar, conjunto infantil - Ballet Clássico

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Album de Família apresenta: A atribulada vida artística dos idos 50/60


por Beto Stodieck


Noites e noches sem pregar os olhos. Olhitos mucho borrados. Muchos borrados pelos salões. Muita e muitas anáguas postas, superpostas. "Sem paletó e gravata não entra", diziam nas portas. O que fazer? "E a carteirinha?" "Não, essa não vale, é falsificada". Todos os artifícios eram válidos para entrar nos clubes e cinemas, onde eram apresentados os espetáculos que faziam o "show business" ilhéu.
Os espetáculos variavam, se bem que o gosto era pra todos. A frequência de um era a de outro. a gente tanto via uma moçoila, um mancebo, um cavalheiro ou uma dama num "show" do Celso Pamplona quanto com o ouvido grudado ao radio chorando com o "Direito de Nascer" ou ainda se deliciando com o Corpo de Baile da Dona Albertina Ganzo. Tudo era válido, motivo prá sair de casa. Aliás, "pé na rua" é coisa típica do ilhéu. Os locais de apresentação também variavam. Tanto podia ser o Cine Odeon, o Cine Ritz, como o antigo Doze ou os modernosos salões do Lira Tênis Clube. Me lembro que uma vez assisti uma apresentação das alunas da Dona Albertina na FAC. Lucinha d'Avila era a estrela. Me lembro como se fosse hoje.

Jornal de Santa Catarina, 12 e 13 de agosto de 1973

terça-feira, 5 de agosto de 2008

BAILARINAS DE PALMO E MEIO E OUTRAS BAILARINAS


1ª Apresentação da Escola de Danças Clássicas Albertina S. de Ganzo

"Dança Russa" - TAC - 20 de dezembro de 1952



por SÁLVIO DE OLIVEIRA


De quando em vez, nosso velho Teatro Alvaro de Carvalho toma ares de prima-dona aposentada e se veste para uma reentré de gala.
Iluminam-se-lhes os salões, dão-se-lhe novos retoques nos cenários envelhecidos e o público esquece as enormes deficiências da primeira casa de espetáculos da Capital catarinense.
Comovido, por certo, o velho casarão, nessas noites, livre da asfixia de tantos anos de inação e de cinema, passeará os olhos enormes pelos camarotes, pela platéia, relembrará as frisas e, até mesmo, as galerias, onde, outrora, outras gerações mais amantes da arte e mais distantes do futebol, aplaudiram Crara Woiss, "rainha da opereta", Jordanini, Leopoldo Froes, Chabi Pinheiro e nossa incomparável Margarida Lopes de Almeida. Lembrará, também, espetáculos como "A Flor da Roça", "seu Jeca quer casar", "A Ilha dos casos raros", "Ouro sôbre Azul", produtos cá da Ilha.
Comovido, juntará seus aplausos, de entusiasmo e gratidão, aos aplusos que coroam trabalhos de arte como o que acaba de apresentar a Florianópolis - D. ALBERTINA SAIKOWSKA DE GANZO.
A ilustre professora e coreógrafa, no seu dizer, pretendia oferecer "o despretencioso espetáculo de Ballet que vamos apresentar, nada mais é do que uma demonstração do que se pode coordenar no curto espaço de um ano, como a boa vontade, o capricho e a graça deste pequeno grupo de meninas e de moças que nele tomam parte". Foi, porém, muito mais alto, ultrapassou os limites impostos pela sua modestia, suplantou qualquer espectativa.
Vimos neste pequeno grupo, ao contrário do que afirma sua competente mestra, não só "meninas e moças que aprendem com o bailado clássico, a beleza de movimentos e a graça de caminhar tão admiradas na mulher", mas futuras bailarinas; bailarinas de palmo e meio, figurinhas d econtos de fadas, como Lucinha Aquino d'Avila, Alzirinha Ferreira, Lúcia Rupp, Vera Luz, Jaçanã Coelho, Teresinha Silva e outras bailarinas, encantadoras adolescentes, onde se destacam Ada Madalena Gonzaga, Maria Leônida Souza, Sônia Barbato, Pochi ganzo, eliana Cabral, Célia Brognoli e Lurdete Brina. E estamos certos, não haveria destaques se oportunidades iguais fôssem dadas a todas as alunas, de seis a dezessete anos, todas talentosas, como foi a revelação dos bailados em que participaram. "Dança Russa", com música de Tchaikowsky, foi o ponto alto das apresentações em conjunto. A coreografia de D. Albertina, o maravilhoso guarda-roupa e a atuação de todas as alunas, perto de sessenta figurantes, aliadas a perfeita execução da orquestra regida pelo Maestro Peluso, deixou-nos a agradável impressão de um verdadeiro espetáculo de "ballet", igual aos de 1948, uma das mais felizes do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
A orquestra, sob a regência do Maestro Peluso, em todos os números do programa, conduziu-se com rara felicidade, fazendo com que houvesse, sempre, perfeita coordenação entre a música e movimento. aqui, há a ressaltar a impressionante interpretação de ada Madalena, em "Boneca" e os bonitos desempenhos de Eliana Souza Cabral, em "Silhueta" e Pochi Ganzo, em "O Cisne", onde música e gesto apareceram na mais perfeita harmonia.
Mas, além disso, são tantas as boas qualidades nesta primeira apresentação da Escola de Danças Clássicas, que ao cronista é difícil dizer tudo, de uma só vez.
Não se poderá porém, deixar para mais tarde as referências ao luxuoso gurada roupa, dos mais custosos até hoje realizados em Florianópolis, por iniciativa particular. E chega o momento de fazermos nossa primeira restrição: a cor do cenário, cortinas de um vermelho escuro, reponsáveis pela a ausência de realce nas cores das vestes e maquiage das pequenas bailarinas. Perderam êstes, grande parte de sua beleza, o que não aconteceria, diz-nos a experiência, se fôsse usada uma rotunda azul, iluminada de baixo para cima. Aliás, o Jôgo de luzes também não foi dos mais felizes.Deixamos porém, tais deficiências e tudo o mais que se refira a equipagem teatral, a culpa da velha casa onde foi montado o espetáculo, por si só um verdairo milagre, pois nunca se viu tão bem arrumado, limpo e apresentável, como na noite de 20 corrente.
D. Albertina, a grande vitoriosa dessa memorável noite, e seus mais diretos auxiliares na enorme tarefa, devem ter aprendido a lição de se fazer teatro em Florianópolis é também reconstruir o prédio do teatro, não basta ser coreógrafo, cantor, músico ou ator.
Mas, a despeito de tôdas dificuldades, após dias e dias de trabalho árduo e de incansável tenacidade, D. ALBERTINA SAIKOWSKA DE GANZO, pode apresentar seu encantador corpo de baile, que nos comoveu e nos deu a certeza de que existe o "ballet" em nossa Capital.
Foi um bonito presente de Natal feito à cidade pela mestra admirável e por suas sessenta alunas, bailarinas de palmo e meio e outras bailarinas.
Fpolis, 22 de dezembro de 1952

Escola de "Ballet"


2ª Apresentação da Escola de Danças de Albertina S. de Ganzo - FAC - 1953




Gustavo Neves (Crônica lida ao microfone da Rádio Guarujá no dia 15-12-1953)



"Não sei se a sociedade Florianópolitana, em todos os seus círculos representativos, já se apercebeu do que é a obra de sentido eminentemente cultural e artístico que a professora Albertina Saikowska de Ganzo está realizando entre nós. A sua Escola de Ballet está fazendo a sua segunda demonstração, em maravilhosos festivais de benefício, no confortável Estádio da Federação Atlética. As alunas da professora Albertina Saikowska de Ganzo, nessas esplendidas exibições de bailados, não só revelam, magnificamente, as grandes e nobres qualidades interpretativas que possuem, ainda na idade em que as emoções ingênuas não contam com o lastro das experiências vividas; mas também depoem de maneira eloquente, em favor da insuperável capacidade da mesma, verdadeira fada a produzir o milagre estético do ritmo, da graça, da expressão mímica e da harmonia nessa pleiade leve e encantadora de meninas que sempre confiaram ao aprendizado da coreografia clássica. E essa obra de designação espiritual e de alta cultura que é também meritório trabalho de catequese da estesia em meio social de já comprovada receptividade, a Fada realiza-a com tal entusiasmo e com tamanho embevecimento que não haverá como recompensá-la em valores materiais, tanto contrastam êste com os móveis do artista que busca a expressão do Belo e que nessa busca se integra, cheio daquela Graça imponderável que lhe nutre o ideal.
A professora Albertina de Ganzo é incontestávelmente, a criadora, entre nós, duma nova sensibilidade artística, felizmente correspondida na intuição de suas alunas, em cujas almas sabe infundir os segredos do gesto impressivo, o fascínio do ritmo e da figuração interpretativos, que não falam apenas das emoções do presente, porque vêm do eterno e profundo mistério das almas, e êstes transcendem limites de tempo e espaço...
Benditas sejam tôdas as iniciativas assim tocadas de sadia espiritualidade. Hoje representam salutar e oportuna reação ao abastardamento do que de mais expressivo do requinte humano valerá como airoso sinete de nobreza das almas verdadeiramente fidalgas... A Escola da professoara Albertina Saikowska de Ganzo reune numeroso corpo de alunas, cujo aproveitamento extraordinário, demonstrado em duas oportunidades, dignifica a geração a que elas pertencem. E não é muito que nos orgulhemos disso, tanto é certo que eleva a índices horosos o conceito de bom-gosto e da cultura da socidade catarinense. Nem por outra razão é que eu, deste modesto pôsto de observação dos acontecimentos da cidade, envio as minhas saudações e os meus aplausos não só à exímia professora, como também às encantadoras bailarinazinhas que magnificamente apreendem o sentido da graça através da sugestão rítmica do movimento e da mímica, que constitui o bailado clássico."

domingo, 3 de agosto de 2008

Duas vidas dedicadas ao Ballet


Albertina Saikowska de Ganzo



2 de agosto de 2000, mais ou menos três horas da tarde,o telefone toca.
_ Dona Pochi venha ao hospital, sua mãe não passa bem. Era uma das quatro enfermeiras particular que ela tinha já fazia um ano e meio.
Peguei meu corsinha (1) e fui imediatamente para lá. Ao chegar, a médica de mamãe veio ao meu encontro no hall, com um semblante que não tive dúvidas, mamãe falecera.
_ Infelizmente ela já faleceu, disse a médica.
_ Meu Deus! E eu nem estava lá. Me levaram onde a tinham colocado ( pois faleceu na UTI e não podia ficar lá)
Fui correndo pelos corredores até uma câmara fria , um quarto tétrico e gelado.
Mamãe querida! Que sensação horrível ver sua mãe embrulhada até a cabeça num lençol verde. Abri os panos para poder beijar-lhe o rosto, meu ultimo beijo.
Um dia antes, ela estava um pouco melhor, mas com o tubo na boca para poder respirar.
A UTI tem horários, e nós nos revezávamos, meu irmão e minha sobrinha Adriana ,o meu horário era o da noite, era bom, porque como era a última visita, a enfermeira sempre me deixava ficar um pouco além do tempo.
Como ela estava melhor, os médicos estavam querendo tirar os tubos para ver se ela já poderia respirar sozinha, eu achei ótimo, achei que ia dar certo!
Na minha última visita, conversei muito com ela, dando ânimo, que tudo ia correr bem, que ela iria respirar sem os tubos, seria um alívio. Mamãe estava descrente, fazia uma cruz com os dedos cruzados, como prevendo que iria morrer..
_ Não mamãe, não fiques assim, tudo vai dar certo!
_A enfermeira veio me avisar que já estava na hora de eu ir embora, mamãe me pegou pela mão, me beijou e fez um sinal da cruz com a mão, como me abençoando.
Mas o pior aconteceu. Quando os médicos a desentubaram, ela não agüentou, até tentaram colocar os tubos novamente, mas já era tarde.
A enfermeira me pediu que fosse ao apartamento dela pegar as roupas para o enterro.
Corri ao apartamento, e enquanto dirigia, subia o elevador e procurava as suas roupas, pensava em como ela era boa, como fui feliz com essa mãe carinhosa, cheia de amor.
Tudo que sou, devo à ela. Eu e o Estado de Santa Catarina devemos muito à ela.
Foi ela que em 1950, abriu a primeira escola de ballet em nosso Estado.



(1) Corsa, automóvel da Chevrolet, GM

Duas vidas dedicadas ao Ballet - parte 2


Albertina Saikowska e seu irmão Aleksander Saikowsky


Começou assim:

Mamãe nasceu em Tibilisi, no Cáucaso Russo, entre o Mar Negro e o Mar Cáspio.
Não sei muito bem a história e me arrependo muito de nunca ter me interessado de conhecer a história completa de minha família, tanto pelo lado de mamãe como a do papai que também foi muito interessante.
Acho que quase todos somos assim, não conhecemos a árvore genealógica da família, mas foi uma pena , quando tive a oportunidade de conhecer, com vovô, vovó, todos vivos, não me interessei, agora não tenho mais ninguém que conheça realmente a história.
Mas vou contar o pouco que sei.
Vovô era oficial do Czar Nicolau II , (aquele, da Anastácia...) Capitão, para ser mais precisa,
( papai o chamava de “capitão Boleslaw”)
Devia ter muita bravura, pois tenho uma foto dele cheio de medalhas no peito.
Sei que ele lutou na guerra da Criméia ( russos contra os turcos ), vovó contava que em determinada faze da guerra, ele era o responsável por um campo de prisioneiros turcos, e ele era bom, respeitava os presos. Depois, de uma reviravolta na guerra, a situação reverteu, e os turcos prenderam alguns oficiais russos, entre eles meu avô.
Os turcos fizeram os russos andarem na neve, descalços,( com certeza muitos perderam os pés com cangrena), mas vovô andou com as botas, e se salvou de ter os pés amputados.
Um dos turcos reconheceu meu avô e falou aos outros que ele tinha sido bom na prisão, então pouparam ele.
Com exemplos como este é que fui criada, dando valor a bondade e honestidade.
Bem, voltando à mamãe....... quando ela tinha meses, vovô teve de fugir da rússia, ( estava implantado o regime bolchevique).
Vovó contava que eles foram para a Polônia primeiro, pois vovô tinha herdado um sitio que era da família, aproveitaram para morar. Mas era inverno, não tinham o que comer, só tinham macieiras plantadas no sitio. Na época da revolução bolchevista todos passaram muita fome, a família de mamãe só comia maçãs. Mamãe enjoou de tal forma, que só foi comer uma maçã, quando eu já era adolescente. Me lembro bem! ,
Meu avô vendeu o sitio, mas o dinheiro tinha desvalorizado tanto que não adiantou nada, não valia nada! Ele até nos deu muitos “rublos” da época que eu ainda tenho. Foram então para a Lituania, onde já vivia tia Zeferina, a irmã mais velha de mamãe, casada com o filho do prefeito de uma cidadezinha. Fugiram em um vagão de gado ( como no filme Dr Jivago ) .
Mamãe tinha 4 irmãos, Zeferina (que sempre chamei de tia Ira), Lílian, Jadwiga ( que sempre chamei de tia Lídia ) Alexander ( que sempre chamei de tio Sacha) e Albertina ( mamãe).
Ficaram uns 8 anos entre Lituânia e Polonia.
Um namorado de tia Lídia, que era polonês, soube que o Brasil estava aceitando imigrantes estrangeiros para trabalharem, então vovô se animou para trazer a família, a situação lá estava cada vez pior. Foram para Lion, um grande porto na França, para esperarem o navio.
Mas só veio vovô com tio Sacha, na época um adolescente, e tio Henrique, que era o namorado de tia Lídia e que depois se casou com ela. Vovó, tia Ira ( já tinha se separado do marido que era alcoólatra) Lídia e mamãe, ficaram em Lion, ( a outra filha, Lílian, já era uma bailarina famosa e não veio, fui conhecê-la em 1950, no Rio de Janeiro nas bodas de ouro de meus avós).
Enquanto vovó esperava em Lion, vovô, no Brasil procurava um trabalho.
Ele sempre foi militar, não sabia fazer outra coisa, foi muito difícil para ele mudar de vida, de pais, mas sempre foram muito gratos ao Brasil. Vovó dizia que o Brasil era uma terra abençoada. Aqui nunca nevava, as árvores estavam sempre verdes, tudo é muito colorido. Me ensinou a ser orgulhosa de minha terra.
Eles eram mais patriotas que muitos brasileiros.
Quem achou primeiro um emprego foi tio Henrique, como era marcineiro e marcheteiro,
conseguiu serviço na Fábrica Brunswick de Bilhares, que era de poloneses, e conseguiu para vovô e tio Sacha, lá também.
Vovô levou quatro meses para poder trazer a família para o Brasil. Ficaram no Rio de Janeiro, onde era a fábrica.

Duas vidas dedicadas ao Ballet - parte 3


Mamãe contava que passaram fome, no princípio, mas já estavam acostumadas.....
O importante é que estavam juntos novamente! Não sei como vovó soube que uma professora russa dava aulas de ballet no Teatro Municipal do Rio, era Maria Olenewa. Falou com ela e conseguiu que mamãe entrasse para a escola.
Maria Olenewa foi uma grande amiga de mamãe, se correspondia com ela até sua morte
( se suicidou, atirando-se do edifício que morava, quando soube que estava com câncer)
Mamãe, apesar da dificuldade de locomoção para poder fazer as aulas ( morava em Duque de Caxias, no subúrbio) , tinha de pegar 2 trens, e andar a pé até o centro do Rio onde fica o Teatro Municipal, fez o curso na maior alegria.
Algumas colegas, sabendo da dificuldade que a família passava, ajudaram muito à ela, dando roupas, com certeza dando sapatilhas, e roupas de ballet.
Uma dessas amigas eu conheci, quando já estudava ballet com mamãe, ela me levou ao Teatro Municipal para assistir uma aula cuja professora era essa amiga.
Depois de algum tempo, mamãe entrou para o Corpo de Baile e aí começou a ganhar cachê, o que ajudou muito à família.
Foi convidada para ser solista, mas bem na época ela já namorava meu pai e estava perdidamente apaixonada ( ela sempre foi, até papai falecer em 1982).
Ele pediu para ela casar com ele e morar e Florianópolis, então desistiu de ser solista, de ter uma carreira talvez brilhante, quem sabe! Mas o amor venceu!
Naquele tempo, aqui no Brasil não havia o “divórcio”, e papai era “desquitado” de sua primeira esposa ( Corina) , em Bagé, e eles não puderam se casar legalmente.
Só quando a ex- esposa faleceu ( na época do nascimento de meu quinto filho) é que eles puderam se casar realmente. Mas o amor deles era tão grande, que eu e meu irmão sempre os consideramos realmente casados.
Voltando ao Ballet..... então mamãe veio para Florianópolis, em 1937, num hidroavião,
( ela contava que no mesmo avião vinha Borges de Medeiros, o grande estadista gaúcho ) e o avião parava no trapiche da pracinha do Katcipes ( praça da Esteves Junior).
Mamãe estava na maior felicidade, ela tinha 17 anos!
Passaram a “lua de mel” no antigo hotel de Caldas da Imperatriz, devo ter sido gerada aí, pois sempre gostei muito deste lugar.

Duas vidas dedicadas ao Ballet - parte 4


Em 1938, eu nasci!
Naquela época, em Florianópolis, era comum a sociedade promover muitos eventos beneficentes com canto, música, declamações e dança.
Faziam saraus dançantes, eram muito bonitos e ingênuos, diferentes de hoje......
Amigas da mamãe pediam para ela coreografar e ensaiar garotas da sociedade para dançarem nas festas, e ela fazia. Eram lindas festas!
Com o tempo, começaram a pedir que mamãe abrisse uma escola de ballet, mas como eu e meu irmão éramos pequenos ainda, ela queria se dedicar mais à nossa educação.
Papai era diretor da Companhia Telefônica Catarinense, que era de meu avô, Cel. Ganzo,
espanhol, nascido nas Canárias e que veio para o Uruguai muito jovem, e se casou com vovó Clorinda , ele tinha 19 anos e ela 14 anos.
Papai contava que vovô montou a primeira central telefônica com 19 anos, em Florida , perto de Montevideu. Foi também o autor da primeira linha telefônica internacional do Brasil, entre Melo e Bagé.
Em 1908, vovô vai para Porto Alegre e funda a Companhia Telephônica Riograndense, era realmente um pioneiro! Vovô era chamado de “coronel”, por ter participado como “Blanco” em episódio armado no Uruguai.
Bem, quando eu tinha 12 anos, por insistência de vovô Ganzo e das amigas de mamãe, papai deixou que ela abrisse a Escola de Bailados Clássicos Albertina Saikowska de Ganzo., (a primeira no Estado de Santa Catarina, alguns anos depois é que começou a escola de ballet de Blumenau)
Incrível é a data que mamãe escolheu para a primeira aula, primeiro de novembro, Dia de Todos os Santos, (apesar de feriado, vieram muitas alunas para a aula inaugural), ela dizia que era para dar sorte, todos os santos ajudariam,...... e parece que ajudaram, pois já se passaram 55 anos e a escola ainda funciona!
Voltemos à 1951, primeiro de novembro, minha primeira aula de ballet, com outras 60 alunas! Mamãe começou já com 60 alunas, era o máximo!
Ballet em Florianópolis? Novidade!

Duas vidas dedicadas ao Ballet - parte 5



Alunas ao final da apresentação 1952



Ao fim do primeiro ano de aulas, 1952, fez o primeiro festival de final de ano, no TAC, Teatro Álvaro de Carvalho, na época era o único. Lembro-me que o primeiro número da segunda parte foi muito bonito, se chamava “Gregas”. Com a música Clair de Lune de Debussi, com uma iluminação azulada, um cenário com quatro colunas que papai mandou fazer, e nós ( eu dancei ) com túnicas gregas, e umas guirlandas de flores que colocávamos nas colunas fazendo um desenho final muito bonito.
Essas guirlandas foram tão bem feitas, ( por uma velhinha que morava em frente onde é o Clube 12 hoje ) que até hoje uso para enfeitar minha casa no Natal, são quase tão velhas quanto eu. As colunas gregas também sobreviveram alguns bons anos, ( serviram de cenário mais umas duas vezes depois que reiniciamos a escola).
Papai mandou os peões da Telefônica ( que era de meu avô) ajudarem mamãe à tirar o lixo do teatro, e tiraram 2 caminhões! Naquela época o Teatro era usado como cinema.
Mamãe decorou todo o teatro, ficou bonito! E dançamos, ao som da orquestra sinfônica
regida pelo saudoso maestro Peluso. Que chique! Era com orquestra sinfônica!
Que trabalho! Nos ensaios, ou faltava aluna ou faltava músico. Para unir tudo........
Mas era muito bom! Só tinha um problema sério, seríssimo, não tínhamos um local adequado para as aulas. Mamãe dava as aulas na sala que seria do nosso apartamento, que vovô tinha mandado construir, em cima da CTC ( Cia Telefônica Catarinense, na praça 15 de novembro ), mas papai não quis se mudar para lá, então mamãe aproveitou o apartamento para dar as aulas. Era pequeno, mas dava. Só que ela tinha de dar muito mais aulas por dia para atender todas as alunas, eram poucas por turma.
Lembro-me que uma vez ela chegou a ficar completamente sem voz, mas mesmo assim deu as aulas. Nosso uniforme era de “piquê” ( um tecido feito de algodão) rosa ou azul claro, dependendo do nível, mais tarde quando já tinham alunas mais adiantadas o uniforme era do mesmo tecido porém preto. Eram de alça, e saia godê curtinha, e tinha uma bombachinha curta como calcinha, separada. As sapatilhas de ponta para as aulas, eram de pelica preta, para dançar nas apresentações, tínhamos que encomendar as sapatilhas cor de rosa de cetim.
Meu pai fazia os programas e mandava imprimir. Sempre gostei de ajuda-lo neste serviço.
Foi um evento muito comentado, um radialista, o Acy Cabral Teive, leu uma crônica muito bonita que escreveu para a Rádio Guarujá, o jornal A Gazeta publicou uma página inteira ( impossível hoje ) com fotos e reportagem de Sálvio de Oliveira, tecendo os maiores elogios.
Foi realmente muito bonita para a época.
Na segunda apresentação, 1953, o teatro estava sendo reformado, pois tinha sido transformado por alguns anos, em cinema, Cine Odeon, e estava realmente precisando de uma grande reforma, então tivemos de fazer a apresentação na FAC, Federação Atlética Catarinense, hoje estádio Rosendo Lima, na Av. Hercílio Luz.
O presidente da FAC era o sr Osmar Cunha, que muito gentilmente cedeu o local, ( sua filha também era aluna de mamãe). O governador, sr Irineu Bornhausen, autorizou seu secretário de obras, o sr Otto Entres à construir um lindo palco dentro do estádio, que na época não era coberto. Aconteceu que o tempo ficou ruim, caiu uma tempestade de verão, durante uns três dias choveu muito, tivemos que adiar até que o tempo melhorasse e o palco secasse.
Não me lembro quantos dias, acho que uma semana. Que contratempo!
Imagine! Alunas, orquestra, todos esperando, sem saber quando a situação melhoraria.
Mas tudo deu certo! Mamãe fez a apresentação, e foi um sucesso! Linda! A noite estava maravilhosa, com lua, estrelas e tudo que tem direito!
Minha mãe sempre começava o espetáculo com “Uma Aula”, um port de bras, com todas as alunas, e com o noturno de Chopin, era emocionante, muito delicado. Lembro-me que as mães já começavam a chorar desde aí, no começo! .
O maestro Emmanuel Peluso, era um gentlemam, muito paciente e delicado com todos, eu gostava muito dele, fiquei amiga, e anos mais tarde, já casada, encontrava com ele na feira e conversávamos muito, lembrando os bons tempos.